Freedom, liberdad

Se eu disser que tô sem tempo, por mais incrível que pareça, é verdade. Tenho muita coisa pra fazer, e um cérebro incrivelmente pequeno para poder organizar isso de modo sensato em 24 horas.

O Vox Populi (http://voxpopuli.orbitanet.com.br) vai muito bem, obrigado! Tô quase terminando o Estatuto dele. Pensando de modo pessimista, ele deve estar funcionando até o final de março. Pensando e modo feliz, ele entra no ar depois de amanhã :)

 Freedom, liberdad*

*”Liberdade, liberdade”, e tals, só que a primeira palavra está em inglês e a segunda em espanhol, como você deveria saber. Ultimamente não tenho escrito nada postável; esse texto é bem antigo.

Liberto é o corpo de quem voa e bate as asas como a borboleta, como os grandes icebergs.  Não importa se nada voa, não importa se a surdez é mórbida, se estou triste e você feliz –  se fumo Marlboro e você Carlton. É sempre a grande questão do vôo e do bater das asas de  borboleta e afins, os furacões que provocam e todo o resto. Isso é liberdade. Isso é  mudança. Isso é o vento.

Todas as outras questões são todas as outras questões, que são basicamente responsáveis  por si mesmas e as dúvidas que criam. Não existem, esqueça. Não há nada de novo que  vôe. Só existem borboletas. Os pombos são borboletas crescidas; galinhas, borboletas que  comem milho. Inventivo é um adjetivo para o sonhador que conta as horas a partir de  pôres-de-sol. Cada um é uma hora, a gente sabe. Incrível, fantástico e tenebroso. 6206  horas de vida me separam do meio até a ponta do início. Algumas outras tantas do dia em  que a borboleta irá esquecer como voar e sumir. Viveu. Desapareceu. Voou e foi feliz.

Árvore

Isto é o que pode ser visto
gravado em uma árvore,
que já viu e sentiu
mais do que todos nós:
“nada é o bastante
para quem não tem nada”
.
Mas além disso
há muito mais escrito
nessa velha criatura
de um século de vida,
que também pode ser lido e,
da mesma maneira,
entendido pelos homens
tão bem quanto entendem
todos os mistérios
que compõem suas vidas.
E como o cartaz velho
de um espetáculo de cinema
na árvore também está escrito:
    “1944:
a guerra ainda não acabou!

Bombas,
em quem não se deve,
bombas;”
    1972:
a guerra ainda não acabou!

Mortes,
no Leste,
mortes;
     2007:
a guerra ainda não acabou!

Dinheiro,
por sua vida,
dinheiro;”
Agora perceba
que todas essas coisas
estão gravadas
somente em uma delas,
em apenas uma árvore,
isolada em um parque
ou jardim qualquer,
tendo só seus escritos
como companhia;
quando tiver percebido
todas essas coisas,
feche seus olhos
e imagine uma floresta.

 

As vezes um poema consegue representar mais coisas do que um texto, apesar de, geralmente, ser menor que a maioria das prosas. Isso ocorre por que, no poema, a realidade ganha uma dimensão que não alcança nas prosas: o discurso capaz de tocar realmente uma pessoa (e isso ocorre por vários motivos, sendo o principal deles, infelizmente, o fato dos poemas serem menores e mais fáceis de ser lidos. Ou seja: se o negócio é resumido e bonitinho, então é mais legal de ler. Cara, como a vida é simples…).

Supernova

 Antes de postar isso aqui eu pensei se eu iria pôr nesse blog textos comuns que eu tenha escrevido. No início era pra esse blog ser só sobre reflexões sobre algum tema, mas caramba, como isso é chato se for repetido toda vez! Na verdade, me faz parece um nerd babaca, então decidi pôr mais coisas aqui.

 

Supernova

As ovelhas berram fora de casa. Deve ser uma nova sinfonia caprina sendo ensaiada, retificada pela mãe-carneiro e orquestrada pelo pai. O som irrita, mas com o passar do tempo se torna familiar, e assim deixa de perturbar. É como se mil manhãs raiassem e fossem embora em um segundo apenas (e como se no outro segundo tudo começasse novamente). É como se parte do céu despencasse sobre o teto de madeira da casa, e ressoasse pelo horizonte a voz irada de Deus, que grita: “mais barbantes! mais barbantes!”.

        Quando as ovelhas cessam seus berros, e tudo fica silencioso outra vez, como deveria ser, é possível ouvir o barulho de todas as crianças que nascem mundo afora naquele instante. Vem abafado, como o som do mar ouvido dentro de uma concha, mas mesmo assim vem. Não falha. Nauseia a alma escutar os berros dos pequenos homens no lugar do das velhas ovelhas, mas, assim como o dos enovelados animais cessa, também o dos pequenos se vai, e tudo se torna nada outra vez.

        Com o silêncio que invade o mundo após as crianças se calarem vem também uma nova voz, que dessa vez não é divina, nem pede barbantes. E ela ecoa pelos campos, distorcendo-se conforme tromba com um obstáculo qualquer, até chegar a ser ouvida: “caboom!”. E então também se vai — também some. Mas logo depois é explicada por uma outra coisa, maior e ainda mais bela: um grande facho de luz ora branca, ora dourada, que se desprende dos altos céus, do grande Universo, para vir iluminar a Terra e a casa. A luz não faz barulho: ela só está — e permanece brilhando, mas mesmo assim ainda é mais mítica do que a serenata das cabras, os barbantes santos ou o choro dos jovens homens.

        Mas como todo o resto, o facho de luz também termina. É o ponto final, que finda mais um capítulo da carochinha dos anjos, intitulada “Sempre e De Volta Outra Vez”, onde o homem é bordado como aquele que só existe para apreciar o espetáculo angélico, como os olhos e ouvidos de um pobre macaco qualquer, que se embriaga com o cheiro da champanhe que é servida na recepção celeste em honra à essa peça teatral. Tontos, acabamos perdendo a maior parte da superprodução, tanto que muitos de nós não conseguem ver nem mesmo o final, a última grande surpresa da noite.

        Vendo Deus onde só há ovelhas, e crianças onde não há nada, já mais que embriagados pelos cheiros e sons da festa que acontece nos Sete Céus, só resta aos pobres macacos deitarem em suas camas e se esquecerem de tudo; buscarem um mundo onde possam sonhar com tudo isso, por estarem demasiados cansados para conseguirem assistir a peça até o final — até quando explode a última supernova do Universo, e tudo o que aconteceu antes perde o significado. E o sentido. E a razão de ter sido admirado um dia. O último raio de luz antes das cortinas se fecharem sempre será o motivo de tudo ter acontecido. É como se fosse posto no fim para que nós não o enxergássemos mesmo, pois, de um jeito ou de outro, jamais entenderíamos o que há de tão misterioso e onipotente em um punhado de claridade, já que a peça não é inteligível, nem consegue despertar em nós a vontade de viver em um lugar melhor ou mais bonito do que o que estamos acostumados a ver todos os dias; pois não se trata de entender como as coisas funcionam, porque elas funcionam ou acontecem, já que, no fim, tudo se resume a sonhar* — e — viajar — pelas — estrelas.

 * Substitua pela palavra que achar mais conveniente. 

Mossanotonia

Li que alguns textos de J.R.R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis e outras obras, eram redigidos como análises filológicas (ou seja, como estudos) de determinadas palavras ou termos das línguas que ele havia inventado. Era como se o autor escolhesse dissertar sobre as origens e implicações históricas de uma palavra como “vida”, “carruagem” ou “etc”. Parece bem monótono, não é verdade? Não, não é. É interessante se você for pensar bem, porquê, afinal de contas, são as palavras que movimentam os acontecimentos e a nós mesmo; são através delas que a grande maioria dos seres humanos se comunica e prosperam nesse mundinho chamado Terra. Por causa disso, resolvi fazer o mesmo no primeiro post do blog: decidi fazer uma análise filológica de uma palavra importante.

s.f. mossanotonia (mossanotonía)
[do lat. morsu, 'mordedura']

 Mossanotonia, claro, é uma palavra que não existe realmente. Ao menos nunca a vi em lugar algum. É um neologismo, ou seja, é uma palavra criada pela junção de outras (ou mesmo à partir do nada). “Porra, cara, então tu ta curtindo com a minha cara quando diz que vai analisar essa palavra, é?”. Não, eu vou analisar de verdade essa palavra, na verdade foi para isso que ela foi “fabricada”. “Pô, cara, isso vai ser um porre. Pra falar a verdade já está sendo um porre, tô achando esse texto muito capenga”. É, eu também, então vamos andar logo com isso pra acabar mais rápido.

Mossanotonia é literalmente um estado de espírito causado por uma pressão (não pressão de porrada, mas “pressão moral”). Mossa em Português quer dizer “impressão moral; abalo” no sentido figurado, enquanto -tonia  é um sufixo, que provavelmente empreguei de modo errôneo, usado para  dar ao radical o sentido de uma “ação”, ou “modo”. Meu Português não é dos mais confiáveis, então se liga só no sentido da palavra, não nessas tentativas minhas de parecer instruído.

Então, sigamos em frente. Quando fiz essa palavra pensei logo em usá-la em um texto, mas não em um texto comum, do tipo “esse-termo-quer-dizer-isso-aqui-e-ponto-final”. Queria fazer dela um substantivo-adjetivo para um estado comum à todos os seres-humanos: o abalo do ego, da alma, do pensamento e o inflingimento desse abalo em outras pessoas ou coisas. Como assim? É o seguinte: uma pessoa mossanômica é uma criatura “alterada pelo meio e alteradora do meio”, é alguém que recebe influência de tudo quanto é porcaria (e de tudo quanto é coisa boa) que está espalhado por aí, e que influencía outras pessoas com tudo isso. É o “homem que é produto do meio” e que faz o “meio ser produto do homem”, e que torna o “homem produto do homem”, e o “meio produto do meio”, aliás, meio esse que já se auto-estimula, dando continuidade automática às ações que os homens praticaram nele (erosões e poluição, no caso da natureza).

Então, tendo em vista tudo isso, uma pessoa mossanômica é invariavelmente uma “pessoa ruim“? Não, ela não é. Uma pessoa assim é alguém comum, que impõe suas necessidades e pensamentos aos outros, em maior ou em menor grau, e que muda parte do mundo (sua casa, bairro, cidade, etc) movida por suas próprias ideologias, as quais, por sua vez, são conjuntos de idéias alheias e outras intrínsecas da própria pessoa. É importante ressaltar uma coisa: uma pessoa assim é uma pessoa normal.

Em resumo, todos somos mossanômicos, pois todos inflingimos uma “pressão normal” em outrem e no ambiente, de maneiras diferentes, obviamente, mas todos o fazemos, e isso é perfeitamente normal e aceitável. Na verdade, é algo bom, pois é através desse tipo de ação que mudamos o que há de ruim no mundo, e evoluímos com o passar do tempo. O único problema da mossanotonia é quando ela se torna exagerada, quando nós, homens, queremos incutir nos outros nossas idéias a qualquer custo, ou quando fazemos alterações destrutivas significativas no meio-ambiente sem respeitá-lo e respeitar aos outros seres-humanos; esse é um tipo de ação que apenas leva ao erro, e deve ser evitado, pois aí a mossanotonia deixa de ser um estado de espírito para se tornar uma doença: o ditatorialismo (ou falta de vergonha na cara, em bom Português).

Os nossos atos só aparentemente são efêmeros. Por vezes, as suas repercussões perduram por séculos. A vida do presente tece a do futuro

                                                                    G. Bona


Frase

"Todo ato de bondade é uma demonstração de poder" - Jeremy Bentham

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