Li que alguns textos de J.R.R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis e outras obras, eram redigidos como análises filológicas (ou seja, como estudos) de determinadas palavras ou termos das línguas que ele havia inventado. Era como se o autor escolhesse dissertar sobre as origens e implicações históricas de uma palavra como “vida”, “carruagem” ou “etc”. Parece bem monótono, não é verdade? Não, não é. É interessante se você for pensar bem, porquê, afinal de contas, são as palavras que movimentam os acontecimentos e a nós mesmo; são através delas que a grande maioria dos seres humanos se comunica e prosperam nesse mundinho chamado Terra. Por causa disso, resolvi fazer o mesmo no primeiro post do blog: decidi fazer uma análise filológica de uma palavra importante.
s.f. mossanotonia (mossanotonía)
[do lat. morsu, 'mordedura']
Mossanotonia, claro, é uma palavra que não existe realmente. Ao menos nunca a vi em lugar algum. É um neologismo, ou seja, é uma palavra criada pela junção de outras (ou mesmo à partir do nada). “Porra, cara, então tu ta curtindo com a minha cara quando diz que vai analisar essa palavra, é?”. Não, eu vou analisar de verdade essa palavra, na verdade foi para isso que ela foi “fabricada”. “Pô, cara, isso vai ser um porre. Pra falar a verdade já está sendo um porre, tô achando esse texto muito capenga”. É, eu também, então vamos andar logo com isso pra acabar mais rápido.
Mossanotonia é literalmente um estado de espírito causado por uma pressão (não pressão de porrada, mas “pressão moral”). Mossa em Português quer dizer “impressão moral; abalo” no sentido figurado, enquanto -tonia é um sufixo, que provavelmente empreguei de modo errôneo, usado para dar ao radical o sentido de uma “ação”, ou “modo”. Meu Português não é dos mais confiáveis, então se liga só no sentido da palavra, não nessas tentativas minhas de parecer instruído.
Então, sigamos em frente. Quando fiz essa palavra pensei logo em usá-la em um texto, mas não em um texto comum, do tipo “esse-termo-quer-dizer-isso-aqui-e-ponto-final”. Queria fazer dela um substantivo-adjetivo para um estado comum à todos os seres-humanos: o abalo do ego, da alma, do pensamento e o inflingimento desse abalo em outras pessoas ou coisas. Como assim? É o seguinte: uma pessoa mossanômica é uma criatura “alterada pelo meio e alteradora do meio”, é alguém que recebe influência de tudo quanto é porcaria (e de tudo quanto é coisa boa) que está espalhado por aí, e que influencía outras pessoas com tudo isso. É o “homem que é produto do meio” e que faz o “meio ser produto do homem”, e que torna o “homem produto do homem”, e o “meio produto do meio”, aliás, meio esse que já se auto-estimula, dando continuidade automática às ações que os homens praticaram nele (erosões e poluição, no caso da natureza).
Então, tendo em vista tudo isso, uma pessoa mossanômica é invariavelmente uma “pessoa ruim“? Não, ela não é. Uma pessoa assim é alguém comum, que impõe suas necessidades e pensamentos aos outros, em maior ou em menor grau, e que muda parte do mundo (sua casa, bairro, cidade, etc) movida por suas próprias ideologias, as quais, por sua vez, são conjuntos de idéias alheias e outras intrínsecas da própria pessoa. É importante ressaltar uma coisa: uma pessoa assim é uma pessoa normal.
Em resumo, todos somos mossanômicos, pois todos inflingimos uma “pressão normal” em outrem e no ambiente, de maneiras diferentes, obviamente, mas todos o fazemos, e isso é perfeitamente normal e aceitável. Na verdade, é algo bom, pois é através desse tipo de ação que mudamos o que há de ruim no mundo, e evoluímos com o passar do tempo. O único problema da mossanotonia é quando ela se torna exagerada, quando nós, homens, queremos incutir nos outros nossas idéias a qualquer custo, ou quando fazemos alterações destrutivas significativas no meio-ambiente sem respeitá-lo e respeitar aos outros seres-humanos; esse é um tipo de ação que apenas leva ao erro, e deve ser evitado, pois aí a mossanotonia deixa de ser um estado de espírito para se tornar uma doença: o ditatorialismo (ou falta de vergonha na cara, em bom Português).
“Os nossos atos só aparentemente são efêmeros. Por vezes, as suas repercussões perduram por séculos. A vida do presente tece a do futuro“
G. Bona